Críticos vêem conflito ético com os interesses privados

A idéia de uma pesquisa financiada com recursos públicos virar produto privado de uma empresa não agrada a todos na academia. Muitos pesquisadores vêem a relação universidade-empresa como um casamento incompatível de interesses públicos e privados. “Existe uma questão ética, sim. A universidade pública tem que fazer pesquisa pública, pautada pelo interesse de toda a sociedade, e não pelo interesse privado de um grupo ou empresa específica”, diz o presidente da Associação de Docentes da Universidade de São Paulo (Adusp), o físico Otaviano Helene. “Empresas pressupõem lucro, e o lucro distorce a ética.”

Caso uma empresa queira colaborar com a pesquisa acadêmica, o mais certo, segundo ele, é fazer uma doação para a universidade. Além dos conflitos éticos, o físico cita complicações práticas. Enquanto cientistas na universidade trabalham tipicamente com projetos de longa duração e resultados incertos, o espírito corporativo exige resultados rápidos e certeiros. “O relacionamento direto é muito difícil, as escalas de tempo são completamente diferentes”, diz.

São críticas que ecoam pelos corredores do MIT, na voz de um de seus mais antigos e consagrados professores: o lingüista e ícone intelectual Noam Chomsky. “Corporações não estão interessadas em financiar a economia, estão interessadas em fazer lucro. O que você acaba incentivando é ciência de curto prazo”, afirma Chomsky. Apesar de ser uma universidade privada, cerca de 80% dos recursos para pesquisa no MIT vêm do governo federal. Ou seja: é dinheiro público. Outros 12% vêm de parcerias com a indústria.

Um dos principais receios é o de que, ao aceitar dinheiro de empresas, as pesquisas passem a ser ditadas por interesses privados. Os contratos também costumam incluir cláusulas de sigilo, o que pode dificultar ou atrasar a publicação de resultados (assim que uma pesquisa é publicada, o conhecimento se torna público, o que não interessa às empresas, pois o investimento só vale a pena se tiverem exclusividade sobre a tecnologia).

“A universidade tem obrigação de avançar o conhecimento, de ensinar. A empresa, não. A universidade quer que todo mundo avance. A empresa não quer que seu competidor avance”, diz o diretor-executivo da Agência de Inovação da Unicamp, Roberto Lotufo. Ele defende a cooperação universidade-empresa, mas reconhece que são necessárias regras claras para que a parceria funcione. Todos os convênios na Unicamp passam por um rigoroso processo de avaliação. Segundo Lotufo, o pesquisador precisa mostrar que o projeto está de acordo com as metas de ensino, pesquisa e difusão de conhecimento da instituição.

“Nenhuma empresa dita nada no meu laboratório. Faço parceria com empresas há muitos anos, sempre dentro das normas legais, e nunca tive problema”, diz o pesquisador Fernando Galembeck, do Instituto de Química da Unicamp. Com apoio da empresa Bunge, ele desenvolveu um pigmento branco para tintas que é mais seguro, mais durável e mais branco que os atuais.

A invenção foi patenteada e a empresa pagará royalties para a universidade e para os pesquisadores. “Suponha que eu tivesse só publicado os resultados e não patenteado nada. Quem se beneficiaria com isso? Alguma empresa pegaria os dados e transformaria aquilo em riqueza de qualquer maneira, só que sem retorno nenhum para a universidade.”

No MIT, os negócios também seguem algumas regras básicas: o pesquisador pode ter empresa, mas não pode usar os laboratórios da instituição para fazer pesquisa de interesse privado. Aqueles que recebem dinheiro de empresas precisam prestar contas à universidade e não podem segurar a publicação de um trabalho por mais de um ou dois meses – tempo suficiente para entrar com o pedido de patente.

“A idéia fundamental do MIT é fazer pesquisa básica, avançar a fronteira do conhecimento”, diz a diretora do Escritório de Licenciamento de Tecnologias do instituto, Lita Nelsen. “O resto não é propósito, são conseqüências muito saudáveis.” Todo cientista, segundo ela, quer ver seu trabalho transformado em algo concreto. “Se alguém faz pesquisa com câncer, é óbvio que quer ajudar a curar o câncer.”

Cientistas brasileiros que já trabalham em parceria com empresas dizem que essa é a melhor maneira de cumprir o papel social da ciência. “Interagir com o setor privado é de total interesse público”, diz o pesquisador Glaucius Oliva, diretor do Instituto de Física de São Carlos da USP e do Centro de Biotecnologia Molecular Estrutural da Fapesp, que tem convênios com a indústria farmacêutica para o desenvolvimento de novas drogas. “O conhecimento tem de estar antenado com a realidade, se não perde sua razão de existir.”

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