A GlaxoSmithKline, fabricante do remédio Avandia, contra a diabete, teve acesso a uma pesquisa confidencial que liga o medicamento a problemas cardíacos, 17 dias antes de ela ser publicada na revista científica The New England Journal of Medicine, em junho do ano passado.
O médico Steven Haffner, da Universidade do Texas, já assumiu a responsabilidade pela quebra de sigilo. O periódico enviara-lhe o estudo sobre o remédio para revisão. Haffner encaminhou o texto confidencial para um amigo que trabalha na Glaxo. ‘Por que fiz isso é um mistério. Eu realmente não entendo. Não estava me sentindo bem. Foi um erro’, afirmou o médico texano à revista Nature.
A pesquisa, conduzida pelo cardiologista Steven Nissen da Clínica Cleveland, relaciona o Avandia a um aumento de 43% no risco de ataque cardíaco. O remédio é largamente usado em todo o mundo para o controle da diabete tipo 2 (a mais comum). Nos Estados Unidos, cerca de 1 milhão de pessoas tomam o medicamento. A Food and Drug Administration (FDA), agência americana que regulamenta alimentos e remédios, emitiu um alerta de segurança sobre o produto. O estudo também causou uma queda nas ações da Glaxo.
Segundo o senador republicano Charles Grassley, a violação de sigilo tornou-se conhecida quando representantes da empresa informaram o Comitê de Finanças do Senado americano de que Haffner enviou-lhes o estudo. Ainda não está claro se a Glaxo tomou alguma atitude depois de ler o artigo. O Comitê pretende apurar quais foram as ações da empresa ao saber da publicação iminente.
A porta-voz da Glaxo nos Estados Unidos, Nancy Pekarek, em uma entrevista à Nature, garantiu que a companhia não ofereceu nenhuma quantia a Haffner para ter acesso ao estudo.
Depois da publicação, a empresa informou que ‘discorda enfaticamente das conclusões tiradas no artigo’ e disse que o trabalho foi baseado em ‘evidências incompletas e numa metodologia que o próprio autor admite ter limitações significativas’.
Em um comunicado oficial, o New England informou que não revelará ao público as ações que pretende tomar contra Haffner. ‘Consideramos que o processo de revisão deve ser confidencial. Qualquer quebra na conduta ética de um revisor seria levada muito a sério pelos editores, mas iríamos tratá-la como um problema privado (da revista).’
No ano passado, o periódico científico restringiu os direitos futuros de publicação de outro revisor, o médico Martin Leon, da Universidade de Columbia. Ele revelou resultados confidenciais de um trabalho relacionado à angioplastia, antes da sua publicação.



