Inovação é rota de sobrevivência em mercado competitivo

O estímulo à inovação é a chave para aumentar a competitividade e garantir a sobrevivência das empresas em um cenário globalizado. Quem não seguir essa rota dificilmente se manterá atuante em qualquer setor, principalmente os mais expostos à concorrência internacional, adverte o presidente da Associação Nacional de Pesquisa, Desenvolvimento e Engenharia das Empresas Inovadoras (Anpei), Hugo Borelli Resende. Nesta entrevista, Resende defende que a política industrial brasileira priorize o apoio às empresas com maior potencial de competitividade em vez de setores específicos. O executivo, que também é gerente de desenvolvimento tecnológico da Embraer, afirma ainda que os recursos oferecidos pelo governo têm sido liberados sem a preocupação de estruturar as companhias tecnologicamente para que se capacitem a realizar projetos inovadores de forma sustentável. Em sua opinião, as empresas brasileiras precisam se fortalecer para liderar o processo de inovação.

Em sua avaliação, quais são os principais gargalos tecnológicos da indústria brasileira como um todo, frente aos desafios da globalização?

Temos ainda muito poucas empresas fazendo pesquisa, desenvolvimento e inovação (P,D&I) no Brasil, a nível competitivo mundialmente. Somos pouco competitivos e participamos muito pouco do mercado mundial de bens de médio e alto valor agregado (atualmente as exportações brasileiras desses dois segmentos estão em nível descendente). A participação das empresas brasileiras nesse mercado é que gera alta competência para competir tecnologicamente com empresas de outros paises. Mas essa participação é baixa, sobretudo se compararmos o Brasil com outros paises industrializados em relação ao volume de investimentos em P,D&I tanto por parte do governo brasileiro como do setor empresarial. Para piorar, as empresas multinacionais com operação industrial no Brasil investem pouco em P&D aqui, apesar de serem responsáveis por 47% dos investimentos nessa área, no Brasil

Quais os segmentos que estão mais expostos à concorrência internacional e como eles devem agir para manter sua competitividade?

Sofremos a concorrência internacional em todos os segmentos. Por outro lado, somos competitivos no mundo em apenas alguns poucos segmentos, principalmente no caso de bens de médio a alto valor agregado. O setor de exploração e produção de petróleo e aeronáutica são bons exemplos de alta competitividade de empresas brasileiras. A indústria automobilística brasileira é um outro exemplo de setor onde predominam subsidiárias de empresas de capital estrangeiro competitivas, que investem em P&D&I no Brasil. Há várias outras empresas brasileiras competitivas mundialmente, mas, em geral, são exceções à regra.

Em sua opinião, as ações devem ser implementadas setorialmente ou pela cadeia produtiva?

Essa é uma questão que está sendo bastante debatida, neste momento em que nossa atual Política Industrial, Tecnológica e de Comércio Exterior está sendo revista. Historicamente, o país não foi industrializado priorizando setores específicos. Temos produção local significativa em praticamente todos os setores e temos excelentes empresas operando no Brasil, nacionais ou estrangeiras, em praticamente todos os setores industriais. Priorizar determinados setores é priorizar tanto empresas competitivas como não competitivas dos setores escolhidos. Nesse sentido, é mais coerente focar o apoio às empresas competitivas ou potencialmente competitivas, de qualquer segmento do nosso parque industrial. Além disso, é importante priorizar cadeias que possam tornar cada vez mais competitivos os produtos oferecidos pelas empresas “campeãs” dessas cadeias. As médias e pequenas empresas dos vários setores produtivos carecem de apoio e incentivos para se estruturarem tecnologicamente, ao contrário do que é feito nos paises mais avançados industrialmente.

Essa concepção já está bem amadurecida no Brasil? Quais as cadeias mais adiantadas?

Não. Ainda se pensa em priorizar o apoio ao aumento da competitividade de alguns poucos setores específicos e não do grupo empresas competentes de qualquer setor. Além disso, os recursos incentivados oferecidos pelo Governo têm sido dirigidos prioritariamente para apoio ao desenvolvimento de projetos específicos por parte das empresas e não visando estruturá-las tecnologicamente para se capacitarem a fazer projetos de forma contínua e sustentável. Há pouca informação e literatura atualizada disponível sobre a competitividade dos vários setores empresariais. A Pintec (Pesquisa de Inovação Tecnológica), do IBGE, fornece informações genéricas sobre elas, mas seria necessário um estudo mais aprofundado para conhecer os motivos básicos de sua maior ou menor competitividade. Entretanto, deve-se levar em conta que cada setor tem suas características próprias. Um trabalho de benchmark pode não ser viável ou não ser aplicável de um setor para outro.

Qual é o peso da inovação no processo de desenvolvimento sustentado?

É critico e enorme. No mundo atual, se queremos ser competitivos tanto no mercado nacional como também e principalmente no mercado global, inovação competitiva precisa ser feita de forma continua e estruturada. É fator básico para o desenvolvimento sustentado de qualquer empresa, de qualquer setor, principalmente daqueles onde a tecnologia evolui rapidamente. Há vários fatores que podem levar a essa condição. A tradição tem peso neste sentido, assim como a cultura inovadora de algumas empresas, aspectos conjunturais, facilidade de recursos humanos, financeiros e de infraestrutura. E há ainda fatores de mercado extremamente relevantes. A facilidade de acesso e participação competitiva e sustentável em mercados globais cria “músculos” nas empresas. Quem não for inovador de forma contínua e permanente, não resistirá à concorrência.

Quais são as principais ferramentas para alavancar esse processo?

Basta ver o que os paises mais competitivos fazem: facilitar acesso ao mercado global, incentivar, subvencionar e oferecer financiamento a baixo custo para estruturação e desenvolvimento tecnológico das empresas, usar o poder de compra do governo para capacitar tecnologicamente as empresas, dispor de boa infra-estrutura tecnológica nas universidades e centros de pesquisa públicos e privados. No Brasil, dada a baixa propensão à inovação, é preciso um trabalho concomitante, de longo prazo, de mudança da cultura tanto empresarial, como do governo e da sociedade em geral em relação à importância de se investir pesadamente em competitividade tecnológica a nível mundial e no aumento da participação de nossas empresas no mercado global.

Como as empresas devem agir, então, para criar uma verdadeira cultura de inovação?

Primeiro, a alta administração deve acreditar e fazer ver a toda organização que inovação é importante para a competitividade da empresa e para sua sobrevivência. Segundo, deve criar na companhia um ambiente propício à inovação e premiar quem inova. Terceiro, deve aprender a assumir e a administrar o risco tecnológico. Por último, deve procurar criar competência tecnológica interna para gerar inovações. Há uma empresa no Brasil, cujo proprietário é extremamente inovador. Para disseminar internamente a cultura à inovação, todos os seus funcionários passaram a ter indicado em suas Carteiras de Trabalho a função de “inventor”. Com isso, sua empresa tem o dobro do maior índice mundial de inovações propostas por funcionário, por ano.

Como fazer uma gestão eficaz dessas ferramentas, inclusive com a participação das universidades e institutos de pesquisa?

Não há segredos. É como gerir qualquer outra ação da empresa que precisa ser bem conduzida. No caso específico de inovação, é necessário uma atenção especial a um bom planejamento tecnológico, visão de médio e longo prazo e uma especial e constante atenção ao mercado e suas tendências futuras, e aos seus principais competidores. Muitas empresas brasileiras ainda estão distantes de suas principais competidoras, principalmente daquelas de paises que investem pesadamente em tecnologia e inovação, com foco no mercado global. A soma de um grupo de entidades bem preparadas e que saibam trabalhar sintonizadas e em equipe na cadeia da inovação, é que gera o sucesso. No caso do Brasil, infelizmente, o elo mais fraco dessa cadeia tem sido a empresa. E é ela quem precisa liderar o processo. Empresas tecnologicamente fortes, dinâmicas e competentes são as que mais demandam valor e excelência às universidades e institutos de pesquisa.

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