Pesquisa na Unesp identifica lacunas e aponta caminhos de diálogo rumo à inovação
Identificar possíveis causas da lacuna existente entre as pesquisas acadêmicas e a aplicação dela pelas empresas foi o objetivo da tese de doutorado de Vanessa Cristhina Gatto Chimendes. Intitulado ‘Ciência e Tecnologia x Empreendedorismo: diálogos possíveis e necessários’, o trabalho verifica como essa distância resulta em um baixo grau de inovação nos produtos ou serviços prestados e em um pequeno número de patentes concedidas no País.
Para a autora, as mudanças tecnológicas tornam a concorrência cada vez mais acirrada em todos os níveis, inclusive entre regiões e países. O conhecimento tornou-se essencial para a geração de riqueza e para a promoção do bem-estar social.
A inovação seria, portanto, um dos principais fatores para que o emprego e a empresa não entrem em um estado estacionário rumo à extinção. Fortalecer a capacidade inovadora do País, com a crescente utilização da tecnologia gerada internamente, faria com que a tecnologia, no sentido econômico, seja um bem passível de comercialização.
Apresentada à Faculdade de Engenharia da Unesp, do Câmpus de Guaratinguetá, para a obtenção do título de Doutor em Engenharia Mecânica, na área de Transmissão e Conversão de Energia, sob orientação de Tomaz Manabu Hashimoto e co-orientação de Antônio Jorge Abdalla, a pesquisa aponta que a produção de conhecimento no Brasil é significativa, porém a transformação desse conhecimento em resultado econômico ainda tem muito que avançar.
“Além disso, o país investe pouco em P&D (pesquisa e desenvolvimento), se comparado às economias mais desenvolvidas. As principais causas apontadas para esse distanciamento estão relacionadas às diferentes missões da universidade, da empresa e do Estado, à formação dos recursos humanos, à baixa cultura empreendedora e às dificuldades oriundas dos marcos regulatórios, tudo servindo de obstáculo para alavancar o desenvolvimento científico e tecnológico de produtos, processos e serviços”, diz Vanessa.
Para ela, existe um distanciamento entre as pesquisas desenvolvidas nas universidades e centros de pesquisa e a aplicação destas pelas empresas, traduzindo-se em um baixo grau de inovação nos produtos ou serviços prestados. “Esta lacuna acaba tendo como consequência o baixo número de patentes concedidas”, diz.
A pesquisadora acredita que é necessária uma aproximação e diálogo entre os empreendedores e pesquisadores, no sentido de superação das diversas dificuldades apontadas por ambos os lados. “Nesta relação, faz-se importante o respeito e reconhecimento do papel que cada lado da questão deve desempenhar. Embora sejam diferentes os objetivos há pontos de convergência, quer na agregação de valor às mercadorias e serviços, quer na continuidade do desenvolvimento científico e tecnológico ou, ainda, nos reflexos positivos que esta parceria pode trazer para a economia nacional e para o bem-estar dos cidadãos”, afirma.
De acordo com Vanessa, na relação desejável entre as universidades, os centros de pesquisa e as empresas é necessário respeitar a autonomia e a área de atuação de cada ator. Ela aponta que, em uma relação saudável, os pesquisadores públicos podem aprender com os desafios reais trazidos pela indústria e compartilhar estes aprendizados com alunos e grupos de pesquisa, podem aumentar os recursos para a pesquisa e prospectar inovações, porém com o cuidado de evitar a subserviência às necessidades apenas da empresa privada e do mercado.
“Há dificuldades históricas e culturais que criaram uma atmosfera de desânimo e pessimismo com relação a esta parceria. Aponta-se, geralmente, que a universidade é ineficaz e lenta, que os empresários preferem importar tecnologia a desenvolvê-la, não se interessam pela pesquisa, buscam lucro imediato, que os pesquisadores só se preocupam em publicar artigos científicos ou ainda que os contratos são tão burocráticos que inviabilizam as parcerias”, afirma.
Vanessa argumenta que essa mentalidade e os procedimentos atuais podem ser transformados, desde que haja um desejo real de mudança, manifestação clara nas vozes dos pesquisadores. É necessário, para a alteração adequada deste quadro, iniciar os diálogos e debates abertos e sinceros, com objetivos claros (sem vaidades), que satisfaçam tanto o desenvolvimento científico e tecnológico, como o industrial.
Para a consolidação de um sistema de inovação maduro, além da atuação dos pesquisadores e empresários, é de fundamental importância um terceiro ator, o governo. “O poder público deve ter clara a relevância da inovação para a economia nacional e para o desenvolvimento social. Sua atuação deve orientar-se no sentido de desenvolver políticas públicas e orientações legais que incentivem a inovação, valorizem os pesquisadores e a educação e facilitem a interação entre o setor produtivo e o ambiente de pesquisa e desenvolvimento tecnológico”, menciona na sua pesquisa.
Ações práticas, como Lei da inovação, a desburocratização dos contratos e dos processos de compra e importações, reduções fiscais, controle das taxas de juros e de câmbio, aumento de investimento em laboratórios e infraestrutura, aumento das verbas para os órgãos de fomento científico e melhoria no valor das bolsas de pesquisa são apontadas como iniciativas louváveis.
Outro ponto essencial é a carência de recursos humanos qualificados e preparados para enfrentar os desafios científicos tecnológicos e de inovação. Neste ponto, é a questão da educação é vista como de vital importância. “Vários países superaram suas deficiências com investimentos maciços no ensino e educação. O diagnóstico da situação brasileira deixa claro: o país, por décadas, falhou neste aspecto”, menciona.
Para Vanessa, os engenheiros/pesquisadores em particular, têm um papel fundamental na intermediação dos processos de inovação. “O engenheiro deve ter, na sua formação, uma cultura que valorize a ciência e a tecnologia, que o prepare para a resolução não apenas de problemas técnicos, mas também de problemas e desafios econômicos e sociais. Para isso, o ensino não deve ver o conhecimento como um mero produto, deve incitar à dúvida, ao pensamento divergente, à cidadania”, avalia.
Vanessa acredita que o país precisa encampar o progresso da ciência e da tecnologia. “Deve haver um compromisso com uma articulação interna da universidade e desta com a produção social não apenas no discurso, mas nas atitudes e ações assertivas e transparentes para consolidar a relação governo-universidade-empresa”, pontua.
A pesquisa cientifica deveria fazer parte da cultura, condição desejável para gerar conhecimento cientifico. “Sobretudo, é necessário aprender a utilizar o conhecimento. Caso contrário, o desejo de modernização e de aumento da competitividade da nação ficarão simplesmente na retórica”, diz.“Pesquisa e educação são necessárias e por isso devem ser tratadas com atenção.”
“Cresce a importância da formação do homem que poderá ser fomentada com exemplos diários entre colegas e professores, durante alguns anos, além de inclusão na grade curricular, de disciplinas de áreas fundamentais do conhecimento humano como filosofia, estudos sociais e história”, conclui Vanessa.



