Do trabalho braçal ao intelectual, a busca constante por uma sociedade mais justa
No dia 8 de março comemora-se o Dia Internacional da Mulher. Há quem questione um dia específico no calendário para celebrar toda uma história de lutas, sofrimentos, desafios e sucesso. Os partidários desta corrente advogam que a epopeia feminina não deveria se resumir na comemoração de um dia, mas reverenciado no dia-a-dia. O fato é que a data se consagrou não apenas pelos episódios de lutas, sofrimentos e tristezas mas, principalmente, pelas vitórias e conquistas conseguidas ao longo de centenas de anos, embasadas no respeito e dignidade, essenciais na construção da cidadania.
Em todos os estratos sociais, as mulheres do século XXI têm, sim, muito a comemorar. Da segregação assustadora da Idade Antiga e Média, eternizada no pensamento de Platão, segundo o qual os homens covardes e injustos deveriam ser transformados em mulheres quando reencarnassem, aos dias atuais, em que ocupam espaços e posições importantes em praticamente todos os ramos de atividades de uma sociedade moderna, foi uma trajetória e tanto.
Desde os primórdios da civilização, as mulheres de todos os recantos do planeta vêm dando uma grande contribuição ao processo de construção da sociedade humana, destacando-se, na ciência, em várias descobertas importantes – apesar das muitas barreiras que ainda lhe são impostas. A história da ciência no Brasil é relativamente recente, quando comparada com a de outros países, mas a comunidade científica feminina vem crescendo entre nós de forma constante nos últimos 50 anos.
Os principais indicadores estatísticos nacionais (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, CNPq; Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, IBGE; e Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo, FAPESP, entre outros) demonstram que as mulheres já são bastante representativas na ciência brasileira. A presença feminina no meio acadêmico e de tecnologia cresceu substancialmente na última década. De todos os pesquisadores registrados no Brasil, 22.797 são mulheres, o que representa 49% do número total de pesquisadores catalogados na base de dados do CNPq – um passo muito encorajador em comparação ao censo de 1993, no qual a participação das mulheres na ciência era de 39%.
Mas o dado ainda não é de comemoração. Quando a leitura se restringe aos coordenadores de grupos de pesquisa, o percentual cai para 45%, ressaltando que ainda temos um longo percurso pela frente. Esta informação é também muito interessante, quando analisamos as diversas áreas do conhecimento.
Na Química, minha área de atuação, temos visto um aumento substancial da participação de mulheres investigadoras em áreas estratégicas, como a bioenergia, a biologia molecular, a química medicinal, os produtos naturais, o meio ambiente e os materiais. Apesar disso, a Sociedade Brasileira de Química, uma das mais importantes sociedades científicas da América do Sul, nos seus 34 anos de criação, elegeu sua primeira mulher presidente apenas há dois anos. A participação das mulheres na Academia Brasileira de Ciências é também muito pequena em comparação à dos cientistas homens. Um outro setor de pesquisa onde a atuação das mulheres ainda é muito tímida é a modalidade P&D (pesquisa e desenvolvimento), envolvendo parcerias entre setores empresariais e agências de governo (FAPESP; Financiadora de Estudos e Projetos, FINEP; e Banco Nacional do Desenvolvimento, BNDS) e depósito de patentes.
Do trabalho braçal ao intelectual, as mulheres continuam em busca de um sonho – qual seja, uma sociedade mais equitativa, onde todas possam colaborar para um mundo mais justo e igualitário. Sobretudo porque, mesmo diante de tantas conquistas, alguns preconceitos históricos ainda persistem, dificultando o processo de lutas e conquistas diárias.
Em nossa atividade diária de ensino, pesquisa e gestão, podemos constatar a presença crescente das mulheres, nas salas de aula, como alunas e professoras, nos laboratórios, como cientistas talentosas e arrojadas, e nos postos de direção de universidades, setores empresariais, sociais e governamentais. Essa realidade tem mostrado que a convivência na igualdade é enriquecedora.
Comemorar o 8 de março, e o que este dia significa, portanto, é uma distinção especial para todos nós, mulheres e homens. Por isso, gostaria de deixar aqui esta mensagem de otimismo e confiança, substâncias que estão no DNA de cada uma de nós.
Vanderlan Bolzani é professora titular do Instituto de Química da Unesp, Câmpus de Araraquara, diretora executiva da Agência Unesp de Inovação e membro efetivo da Academia Brasileira de Ciência.
Texto Publicado no ano de 2012 no portal: http://www.univesp.ensinosuperior.sp.gov.br/



