Entre o laboratório e a política científica
“Desde menina, caprichosa e nordestina, eu sabia, a minha sina era em São Paulo vir morar.” Com o perdão da leve paráfrase à canção de Chico Buarque, as primeiras estrofes de A Violeira bem poderiam ser a música tema da vida de Vanderlan Bolzani. Filha de mãe portuguesa com índio tabajara, pequena, magrinha, a jovem recém-formada em farmácia sabia que se fosse para fazer pesquisa tinha de vir para São Paulo. Saiu num ônibus de João Pessoa (PB) só com a coragem, sem nem ter a certeza de que seria aprovada no mestrado.
Hoje uma das principais especialistas em química de produtos naturais do país, Vanderlan, aos 60 anos, acumula cargos administrativos e políticos, sem deixar de lado o laboratório. É professora do Instituto de Química da Unesp de Araraquara, onde criou o Nubbe (Núcleo de Bioensaios, Biossíntese e Ecofisiologia de Produtos Naturais), é vice-diretora da Agência Unesp de Inovação e integra a coordenação da rede Bioprospecta, do programa Biota-Fapesp, o Comitê Assessor de Química do CNPq e também o comitê de fitoterápicos do Ministério da Saúde. Ainda acumulava, até o final de maio, a presidência da Sociedade Brasileira de Química – foi a primeira mulher no cargo.
O fim da gestão coincidiu com o recebimento de um título, inédito na América do Sul, que simbolizou o reconhecimento por suas pesquisas e promoção do avanço da área. Ela se tornou fellow da Royal Society of Chemistry, distinção concedida a somente mais 78 pessoas neste ano, em um universo de 46 mil associados. Essa categoria reúne químicos altamente gabaritados, inclusive prêmios Nobel.
Nesta entrevista, ela faz um panorama das dificuldades em fazer pesquisa de bioprospecção no Brasil, a partir dos eventos que marcaram sua carreira. “Talvez essa vontade que eu tenho de estudar as plantas esteja relacionada com o sangue indígena do meu pai. Minha avó gostava muito de chazinhos, tanto que até hoje eu tomo… mas, veja bem”, faz questão de frisar, “sou contra esse negócio de chá de plantas medicinais, se não tiver um conhecimento muito profundo (risos).” Na dúvida, diz, prefere o remédio que tenha o selo da indústria farmacêutica. “Porque eu leio a bula e sei o que é que tem nele. Se for uma coisa de planta que eu não sei o que tem dentro, não tomo, não. Tem de ter estudo validado, teste de toxicologia, saber a eficácia.”
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UC
Na reuniao da SBQ deste ano, a senhora trouxe como convidado o premio Nobel de Quimica de 2008, Martin Chalfie, que alertou sobre os riscos da pressao para que toda pesquisa tenha utilidade e defendeu a importancia da producao do conhecimento puro. Boa parte do seu trabalho e voltada para a pesquisa aplicada. Como a senhora avalia a opiniao dele?
Vanderlan Eu realmente sou fascinada por essa pesquisa que resulte em produto, em alguma coisa de útil para a sociedade, mas acredito que isso só é possível tendo uma pesquisa básica sólida, de qualidade e profunda. A crítica do Chalfie é sobre a pressão que existe para a aplicação da ciência. Quando se faz uma pressão muito grande como essa, de fato parece que se está dirigindo a ciência. E aí, muitas pessoas, para obterem apoio financeiro, terminam dizendo que fazem muitas coisas que não fazem. É aquela velha história: não existe ciência aplicada, mas aplicação da ciência.
UC
Mas como fazer uma ciencia basica que nao seja dirigida quando se esta buscando inovacao? A senhora defende que um dos caminhos para a bioprospeccao e fazer parceria com empresas. E possivel conseguirparceria e ainda ficar livre para fazer a pesquisa basica?
Vanderlan Não é uma tarefa muito simples num país como o nosso. A indústria brasileira de fármacos ficou acostumada a ter pacotes prontos, então ela não investe em pesquisa e desenvolvimento, em inovação. O custo de ter empresa no Brasil faz com que o empresário não queira investir em risco. E pesquisa é risco. Mas vale a pena. Ela pode dar certo ou não, mas mesmo não dando certo gera conhecimento, oportunidades. Claro que temos empresas grandes atualmente que fazem isso. Estão levando para seus quadros pós-doutores e doutores altamente qualificados. Isso cria um ambiente competitivo que faz com que outras empresas também passem a investir. Na história recente, o aporte financeiro que veio do governo federal tanto para as universidades quanto para o setor industrial também é muito favorável. As pessoas hoje não podem reclamar, tanto, de falta de verba. Lógico que não se compara com a verba para pesquisa dos Estados Unidos. Os universos são muito distintos. Em Boston ou mesmo no Vale do Silício, no entorno do MIT e das universidades ou centros de pesquisa, estão os laboratórios da Merck, da Novartis, de outras indústrias. Sou favorável a termos parceria com as indústrias, para que elas encontrem na universidade boa pesquisa em que possam investir para fazer desenvolvimento. Mas isso só virá da ciência básica de qualidade.
UC
Qual e o cenario da pesquisa em produtos naturais no Brasil?
Vanderlan Hoje temos uma química de produtos naturais muito forte no Brasil. Teve origem em três grandes mestres. Um deles foi meu orientador na USP, Otto Gottlieb, os outros foram Walter Mors e Benjamin Gilbert. O Gottlieb queria estudar a composição química das plantas para estudar evolução, filogenia, entender a natureza. Não estava muito preocupado se a planta podia gerar um produto ou não. Isso talvez tenha gerado um descompasso. Se as duas coisas tivessem acontecido ao mesmo tempo, talvez nós tivéssemos alguma coisa hoje. Não temos nenhuma molécula valiosa como fármaco da nossa flora, algo como taxol (usado no tratamento de câncer) ou galantamina (para Alzheimer), que são substâncias puras, tiradas da natureza, e foram passadas para o mercado farmacêutico, tornando-se mercados bilionários.
UC
Por que nao temos? Vira e mexe vemos pesquisas sobre substancias que se mostram promissoras para isso ou aquilo…
V
anderlan Porque não basta fazer só bioprospecção preliminar. Precisa ter um trabalho muito bem integrado de químicos, biólogos, farmacólogos, toxicologistas. E um setor industrial apto a absorver esse conhecimento e desenvolvê-lo. Essa fase de desenvolvimento é um problema. As indústrias grandes ainda não fazem isso aqui no Brasil, as que querem fazer vão para fora, o custo é muito alto, e as pequenas nos procuram para começar a fazer essa fase. O que é um desafio tremendo, porque a universidade tem que produzir conhecimento, ela não está preparada para fazer desenvolvimento. Nossos laboratórios servem para isolar, identificar uma substância que ocorre em uma planta em miligramas. O desafio do desenvolvimento é produzir em larga escala para fazer testes pré-clínicos e clínicos. Durante muito tempo esse foi um tabu da universidade – “sou um cientista clássico, isso é coisa tecnológica”. Para fazer uma pesquisa tecnológica tem de ter o conhecimento básico muito profundo para reproduzir em larga escala aquela pesquisa que foi feita em microescala. Mas sou otimista, acho que a situação está melhorando. Várias indústrias estão investindo e a universidade também toma consciência desse universo.
UC
Nesse periodo o Nubbe mesmo analisou milhares de moleculas.
V
anderlan Sim, temos uma base de dados que não é tão grande, mas somos um laboratório com sete docentes e vários estudantes de iniciação científica, mestrado, doutorado e pós-doc. Nesse tempo depositamos algumas patentes e fizemos alguns trabalhos de pesquisa com empresas. Agora estou terminando um projeto temático e já tentando construir na minha cabeça como vai ser meu próximo, talvez meu último, já que estou ficando velha. Estou pensando sempre de que forma vou estudar a natureza, as micromoléculas, com ciência básica, mas de modo que eu possa inovar o conhecimento de produtos naturais do Brasil e achar algum modelo que possa causar interesse no setor industrial. São quase 30 anos de luta dentro da Unesp. Quando cheguei, em 1981, o laboratório de produtos naturais só tinha um equipamento de ressonância magnética nuclear antigo, parado, que eu e uma colega tentávamos pôr em funcionamento… Como boa nordestina, sempre gostei de desafios, mas foi muito trabalho. Ciência custa caro e ciência química custa mais caro ainda. Mas sempre tivemos financiamento da Fapesp, e isso ajudou muito.
UC
O tema geral da proxima reuniao da SBPC sao as pesquisas no mar. A senhora vai fazer uma conferencia sobre bioprospeccao nesse ambiente. E o seu proximo desafio?
V
anderlan A situação é que o mar brasileiro é quase inexplorado e ainda não temos nem sequer massa crítica para estudar o ambiente marinho. Na SBPC vou falar sobre isso. Temos de começar a preparar pessoas para isso. Eu faço 61 anos em novembro. Nós, pesquisadores que já construímos carreira e temos um status de reconhecimento nacional e internacional, temos de estar atentos para preparar nossos sucessores. Não quero que meu laboratório morra comigo. Quero que os jovens que estão lá tenham a visão de que no futuro eles vão ser muito melhores do que somos agora. Tenho, talvez, uma frustração na minha vida de não ter estudado o mar no passado. Quando eu queria fazer meu pós-doc estava praticamente certo que eu ia para a Califórnia estudar organismos marinhos, mas nesse tempo meu marido teve derrame, ficou hemiplégico e eu desisti de fazer o pós-doc. Naquele momento eu parei de fazer pesquisa, só fiquei dando aula para não perder o elo. Foi quase um ano assim. Fiquei meio traumatizada, perdi o interesse. Depois meu marido foi se recuperando aos poucos e ele me falou: “Você não vai deixar de fazer sua carreira porque eu estou assim, você vai com as crianças e eu fico aqui com minha família”. Fiquei resistente, mas depois pensei que tinha de ir por meus filhos e por ele. Mas não fui mais fazer [pesquisa com organismos] marinhos. Fui trabalhar com plantas em busca de substâncias antitumorais, fui para outro laboratório (Instituto Politécnico e Universidade Estadual da Virgínia) numa cidade pequena, onde trabalhei com o David Kingston, com substâncias anticâncer.
UC A senhora entrou na Faculdade de Medicina, depois foi para a Farmacia e acabou se especializando em Quimica Organica. Como foi essa trajetoria?
V
anderlan Quando eu estava no antigo científico, os estudantes eram dirigidos pra fazer ou Medicina, ou Engenharia ou Direito. E aí eu sempre achava que ia ser médica, o que era muito estimulado pelos pais. Entrei em Medicina na Federal da Paraíba, comecei a cursar o ciclo básico, fiquei um ano e meio, fiz fisiologia, anatomia, uma série de disciplinas, mas não gostei muito. Nas aulas práticas, em que a gente ficava olhando, eu pensava como é que eu ia ser médica fazendo aquilo. Tranquei o curso e fui fazer Farmácia. É um curso muito bonito, fiquei fascinada por farmacologia (que estuda o mecanismo de ação de drogas). Acho que só não me tornei farmacóloga porque fiquei traumatizada com um experimento em sala de aula em que tínhamos de fazer um teste com estricnina e acabamos matando um coelho com uma dosagem errada. Aí achei que não ia dar, mas mesmo assim terminei o subscurso. E eu tinha um professor de Química Orgânica que me deixou apaixonada pela disciplina, era o professor Wilmar Nunes Brito. Ele tinha feito mestrado em Química na USP e eu quis vir para São Paulo para fazer mestrado também. Mandei uma carta para um professor da USP e decidi que viria. Só tinha dinheiro para três meses.
UC
Como voce foi para produtos naturais?
V
anderlan Eu fui para a USP para trabalhar com o Paulo Carvalho, que tinha sido o orientador do professor Wilmar. Ele respondeu a minha carta, foi muito gentil, catei minha malinha, peguei o ônibus e vim para cá. Levava dois dias pra chegar. Mas naquela época eu tinha 22 anos, então tava tudo bem. Vim na coragem, sem ainda estar aprovada no mestrado. Logo arranjei de morar no Crusp, que naquela época tinha muito estrangeiro fazendo pós-doc, muito estudante de pós-graduação de outros Estados, os apartamentos eram arrumadinhos, era ótimo morar lá. Mas quinze dias depois de eu chegar, o Paulo Carvalho teve um infarto e morreu. Na hora eu fiquei perdida, não sabia o que ia fazer. Quem me ajudou foi o professor Mario Motidome, que eu tinha conhecido no laboratório do Paulo. Ele trabalhava no bloco 11 [do Instituto de Química, conhecido como B-11, onde se formou boa parte dos principais líderes de pesquisa em produtos naturais do país] junto com o professor Otto Gottlieb. E disse que eu podia fazer um estágio com ele, ir aprendendo sobre plantas e ele me apresentaria para o Otto. Passei seis meses sem ganhar bolsa nem nada, depois ele me deu uma bolsa tipo iniciação científica, enquanto eu não fazia a prova para o mestrado. Aí conversei com o Otto, fiz a prova e passei. Naquele momento a Fapesp só dava bolsa para paulistas. Mas meu orientador pediu a bolsa, e a Fapesp aprovou. Acho que fui a primeira pessoa a ter bolsa da Fapesp que não era daqui. Mas para isso eles pediram um documento que comprovasse que depois eu poderia ser aproveitada na Federal da Paraíba. Em 1978 voltei para João Pessoa, mas lá não tinha muita condição de fazer pesquisas, não tinha laboratório, e era o que eu queria fazer, então liguei para o meu orientador e comecei a fazer um projeto teórico.
UC Foi nesse periodo que surgiu o convite para vir para a Unesp?
V
anderlan Estava em João Pessoa e tive de vir a São Paulo fazer a prova de francês para o doutorado. No avião eu trazia a minha filha pequenininha e do meu lado estava sentada uma senhora que disse: “Eu não gosto de criança, não gosto de choro, mas a sua criança é muito simpática”. Fiquei olhando pra ela meio atônita, mas estava com um papel do doutorado na mão e ela ficou curiosa para saber o que eu fazia Respondi e ela se espantou: “Doutorado com o Otto Gottlieb? Nossa! Sabe quem eu sou?” Falei: “Não”. “Sou a Maria Aparecida Pouchet Campos.” Reconheci na hora. Ela tinha um cargo na Capes e era diretora da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Unesp. Fomos conversando até chegar. Ela disse que queria muito pôr uma pessoa de produtos naturais na farmacologia. Quando descemos do avião, ela me deu um cartão e disse que se eu quisesse voltar para o Sul, que fosse fazer uma visita. Naquela época as coisas estavam ficando mais complicadas na Paraíba. Eu, talvez já acostumada com o ambiente da academia na região Sudeste, que é muito diferenciado, não me adaptei mais lá e estava tendo dificuldade de completar meu doutorado, então liguei para o meu orientador e toquei no assunto. Ele me aconselhou a ir, disse que era uma oportunidade inédita para mim: “Araraquara tem um curso bom. E você estará mais perto, pode vir aqui desenvolver sua tese”. Aí eu fui. Lembro que meu marido tinha um fusquinha, a gente pegou aquela estrada, e eu só pensava “Mas é muito longe…” E ele se interessou também porque havia uma ideia de se criar um curso de pós-graduação em Sociologia pela Heleieth Saffioti e ele foi para lá fazer o mestrado. Entrei na Unesp na Faculdade de Ciências Farmacêuticas. Mas no Instituto de Química já havia alguma coisa de pesquisa em produtos naturais então acabei me transferindo. Foi aí que comecei a fazer minhas primeiras pesquisas e dei início à carreira desse laboratório que viria a ser o Nubbe. A gente foi montando uma estrutura. Primeiro eu, depois chegou a Maysa Furlan, a Márcia [Nasser Lopes], o Alberto [Cavalheiro], a Dulce [Helena Siqueira Silva], a Angela [Regina Araujo] e o Ian [Castro-Gamboa]. Cada um trabalha sua linha de pesquisa, mas todos juntos dentro de um contexto. Isso é extremamente interessante, talvez seja o sucesso do nosso laboratório.
UC Suas pesquisas dariam um salto com o surgimento do Biota…
V
anderlan Em 96/97, soube que vários biólogos de São Paulo, capitaneados pelo Carlos Joly, da Unicamp, estavam se organizando para submeter uma série de projetos temáticos articulados na Fapesp para estudar a biodiversidade do Estado. Eu já vinha trabalhando há bastante tempo em parceria com a dra. Maria Claudia Marques Young, do Instituto de Botânica de São Paulo, e ela e a dra. Sonia Dietrich, que era a responsável pelo projeto no instituto, me chamaram para participar. Cheguei a uma reunião na Unicamp com um monte de biólogos sem conhecer ninguém. Falei que era química e todo mundo me olhou meio assim, desconfiados, mas acabaram me aprovando. Nossa proposta era fazer bioprospecção para substâncias antitumorais, antifúngicas e antimaláricas. Todos os pesquisadores participantes entraram na Fapesp ao mesmo tempo com projetos temáticos articulados. Naquela ocasião ainda não era um programa. Dos oito projetos aprovados numa primeira leva, o nosso estava no meio. Pedimos uma série de equipamentos para fazer triagem e ganhamos tudo. Com isso montamos uma infraestrutura muito boa em Araraquara por causa desse projeto temático.
UC
A senhora fazia coleta em campo?
V
anderlan Sim, naquela época não havia problema nenhum com coleta de biodiversidade. Nós coletamos quase 800 espécies de mata atlântica e de cerrado de todo o Estado e preparamos quase 2 mil extratos. Conseguimos isolar várias substâncias algumas poderiam interessar para cosméticos, outras para fitoterápico. Uma em especial, um alcaloide, se revelou um protótipo para inibidor de acetilcolinesterase, que pode no futuro levar a um fármaco contra o mal de Alzheimer. Mas ela era altamente tóxica, então pensamos em modificá-la. Com duas pequenas alterações, não só diminuímos a toxicidade, como alcançamos uma atividade muito maior de inibir a acetilcolinesterase, quase similar à da galantamina (principal produto usado contra a doença). Decidimos investir nessa substância, mas para isso precisaríamos de uma grande quantidade dela. Começamos então a fazer um estudo em várias épocas do ano para ver quando ela era produzida pela planta em maior quantidade e em qual parte. Detectamos uma concentração enorme nas flores. Isso acabaria interessando um diretor de pesquisa da Eurofarma, que depois foi para a Apsen Farmacêutica e levou para lá o projeto de fazer o estudo de fase préclínica. Foi bem-sucedido, mas para fazer a sequência precisaria de muito investimento. E, com a crise, a empresa disse que não conseguiria mais. O projeto ficou parado, depois de quatro anos e meio de trabalho. Eles pagam as patentes, que são caras, a universidade não tem condições. Agora, com a Agência Unesp de Inovação, a coisa deve mudar de figura. Eles permitiram que a agência procure outra empresa que tenha suporte financeiro para investir. Um grande laboratório já está interessado
UC
Foi por conta desse seu projeto que surgiu o Bioprospecta?
V
anderlan Sim. Esse projeto foi bem-sucedido no seu propósito que era bioprospecção. Na época o diretor-científico da Fapesp era o [José Fernando] Peres, que é bem visionário, e pensou: se esse deu certo, por que não abrir dentro do Biota um subprograma que pudesse ter vários projetos com esse objetivo? Temos uma excelente química de produtos naturais no Estado, por que não? Assim começava o Bioprospecta, em 2005. O balanço desse período é que de fato precisamos de uma maior inserção com o setor empresarial para fazer desenvolvimento. Temos poucos produtos em andamento. Mas isso é natural. É um trabalho difícil. Sempre falo que trabalho de bioprospecção é como beijar muitos sapos para encontrar um príncipe.
UC
Logo que o Bioprospecta comecou, a sra. declarou que achava que se ele tivesse um bom desempenho talvez ate pudesse colocar fim a biopirataria. Apos esse periodo, como avalia essa questao?
V
anderlan Olha, eu nem gosto de falar de biopirataria. Porque neste segundo projeto temático nós não conseguimos fazer uma coleta, não tivemos autorização. É algo que já foi bastante discutido, mas precisa ser mais, que é a lei de acesso ao patrimônio genético. Não dá para trabalhar em bioprospecção dentro do marco regulatório atual. É uma coisa enroscada. Só não estamos ilegais porque estamos trabalhando com um banco do passado, porque nesses quatros anos em que o próprio governo investiu quase R$ 5 milhões no laboratório, nós não fizemos uma coleta. Enquanto não se resolver esse problema, as empresas não vão se interessar. É andar na contramão do tempo. O marco regulatório do país é um descompasso. O governo propõe uma política de desenvolvimento tecnológico e inovação altamente arrojada, mas os marcos vão contra. Como avançar com uma coisa que não deixar avançar? Tem de mudar isso se quisermos trazer o setor empresarial para olhar o que se faz sobre a biodiversidade. Essa coisa de biopirataria só existe na cabeça de meia dúzia.
Reportagem de Giovana Girardi / Revista UnespCiência
O que dizem sobre Vanderlan Bolzani
♦Carlos Joly
Biólogo da Unicamp e coordenador do programa Biota-Fapesp
Acho que foi graças à visão estratégica e à persistência da Vanderlan que o Biota teve, desde seu início, uma área de bioprospecção. Quando estávamos discutindo a montagem do programa, ela veio e sugeriu a inclusão da química de produtos naturais, pois era uma forma sustentável de usar a biodiversidade. O grupo era quase totalmente formado por biólogos, ficou aquele constrangimento no ar, mas ela foi bastante enfática e caímos na real. Acho que o programa ganhou muito com a audácia dela.
♦David G. I. Kingston Pesquisador do Instituto Politécnico e da Universidade Estadual da Virgínia
Quando fiz o relatório sobre o período que a dra. Bolzani passou aqui, fazendo o pós-doc, escrevi: “Ela completou seus estudos com energia e entusiasmo. Ela se tornará uma excelente diretora de pesquisa nos próximos anos”. Fico muito feliz de ver que minha previsão se provou correta.
♦Gordon Cragg
Pesquisador do Instituto Nacional do Câncer dos EUA, colaborou com Vanderlan em suas pesquisas por 15 anos
Ter sido escolhida como
fellow da Royal Society of Chemistry é uma honra altamente significante para ela, representa um reconhecimento internacional por sua importante contribuição à pesquisa de produtos naturais e de química orgânica. Eu sou um franco admirador dos esforços dela para estabelecer programas para investigar o potencial da biodiversidade brasileira.



